mãe!

Diretor: Darren Aronofsky
Roteiro: Darren Aronofsky
Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris
Gênero: Drama; Terror
Orçamento: US$ 33 milhões


Todo filme que consegue instigar o espectador, gerando debate, reflexão ou discussão já tem seu mérito. O Diretor Darren Aronofsky, de Réquiem para um Sonho (2000) e do interessante Cisne Negro (2011), traz uma narrativa de sinopse simples. trabalhada na metáfora e baseada na Bíblia.

A Bíblia é o livro mais vendido do mundo e, como tal, rica em histórias. A partir delas há inúmeras interpretações já realizadas e diferentes formas de contar o que foi registrado no Velho e no Novo Testamentos. Aronofsky já tinha experimentado esse caminho com Noé (2014): filme de grande orçamento e com elenco estelar mas com um drama certinho e amarrado. Contrariando tudo isso, o Diretor entrega Mãe! E como o próprio substantivo remete, mãe pode ser a quem dá à luz, quem cria, quem ama, quem acolhe, quem protege.

A primeira camada da trama é bem simples: casal vive em uma casa de campo. O escritor (Javier Bardem) sofre com bloqueio criativo e não consegue iniciar seu novo livro enquanto sua esposa (Jennifer Lawrence) cuida da pintura das paredes, faz o café da manhã e dá todo o apoio possível para o marido. Essa rotina permanece até o momento em que começam a receber diversas visitas. Tendo apenas isso como conhecimento, o filme pode causar grande estranheza por parte do espectador, mas, mesmo assim, algumas passagens bíblicas são óbvias.

Para quem possui maior bagagem religiosa, será possível apreciar (ou, definitivamente, não) melhor o filme. As referências são inúmeras, os atores incorporam, até de forma simbólica, diversos personagens e representatividades. Mesmo a história sendo lapidada através da Bíblia, pode-se analisar o filme pelo viés dos Deuses, seus egos e o complexo relacionamento com a humanidade.  

O mais interessante é o personagem Mãe, de Jennifer Lawrence. A obra é contada pelo seu ponto de vista. Seja pelo movimento de câmera, os enquadramentos e principalmente pela narrativa. O espectador sempre sabe o mesmo que a personagem causando sensações similares como da incerteza, da invasão do seu íntimo, do esforço que ela tem para proteger o lar, do amor transparente pelo seu marido e do desejo por um filho. Todos esses elementos dão significado e peso à personagem. A pureza e o amor são continuamente jogados em cena; mas ela só se tornará uma verdadeira Mãe se vida a um novo ser ela conseguir dar.

Sempre companheira do seu marido, mesmo nos casos em que não aceita certas atitudes, a Mãe é a fortaleza do lar e nos momentos de fraqueza se abastece com água e um pó amarelado. No decorrer do longa. o elemento fogo está presente e sempre é visto com precaução por ela.

O marido é aquele que está lapidando suas ações. Ele busca energia nas pessoas a fim de encontrar inspiração para sua escrita. Javier Barden está excelente. Ele é bondoso com sua esposa; recebe de braços abertos as pessoas; tem o dom da palavra; mas não aceita transgressões, como a que ocorre em seu escritório. Em todas estas performances o ator aparece no tom certo. Sua representatividade está na luz, no fogo conforme o próprio cartaz do filme.

Analisando o filme pelo viés dos Deuses, é muito interessante o ponto de vista feminino. Contar essa história a partir de um Deus de representação masculina e forte não seria tão interessante. Aqui o Diretor acerta o ponto pois mesmo a Mãe oprimida e vivendo de forma claustrofóbica, ela é tão forte quanto a representação do Deus masculino. Seu instinto de proteção é posto sempre à prova pelos elementos externos. Ela luta contra as adversidades constantemente, mesmo quando não as compreende por completo. Um verdadeiro martírio.

Outro aspecto interessante é a ausência de trilha sonora. Em um filme como esse, com tamanha metáfora, não deixa de ser surpreendente. Isso dá mais vigor aos diálogos, interpretação dos atores e às ocorrências na história. O silêncio incomoda no início; posteriormente, tamanho o caos, o queremos de novo tanto quanto à protagonista.

O “pecado” do filme de Aronofsky é que trabalha tanto com a metáfora ao longo da narrativa (e nem sempre com sutileza) que perde a mão quando resolve ser literal deixando de ser interessante para ser meramente incômodo. Há cenas descontextualizadas meramente feitas para dizer de onde é a fonte de criatividade do Diretor. Há diálogos que não se sustentam e cenas apelativas. Seu arco final, mesmo sendo representativo e tecnicamente incrível, consta de uma mudança abrupta de ritmo e narrativa. A Mãe, dentro desse caos, grita sem parar.

Fazendo uma analogia simples, Aronofsky quis fazer um poema cinematográfico da Bíblia. Mas como em qualquer universo da literatura, há poemas bons, medianos e ruins. Pode-se dizer que o Diretor sabe escrever, mas o poema não foi o melhor gênero trabalhado. É uma obra controversa em que uns vão amar, outros odiar. Melhor é sempre buscar um equilíbrio nas avaliações. Mas o que se viu no Festival de Veneza foi exatamente isso: o longa foi ovacionado e vaiado ao mesmo tempo durante sua Premiere neste ano.




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