Três Anúncios Para Um Crime - Um Contraponto (e uns tantos spoilers)

Um grande ator em um papel de menor expressão, como explorar seu potencial dentro dos limites impostos pela trama? Um bom problema, suponho. Não para Martin McDonagh, diretor e roteirista de Três Anúncios para um Crime.

Em tempo: me refiro ao sempre competente Woody Harrelson e seu delegado Billy Willoughby. Nenhum reparo à sua atuação. Assim como outros personagens seus, Willoughby se apresenta sob múltiplas lentes. Do cinismo resignado de sua atitude perante o crime (não O Crime, aquele que enseja o filme, mas a criminalidade como um todo) ao pragmatismo para lidar com a própria morte, Harrelson constrói um tipo singular a partir de elementos que causam empatia ao expectador e, assim, fica difícil retirá-lo de cena. Começa aí um problema para McDonagh.

Surge a impressão de um diretor reticente em abrir mão de um personagem tão rico, algo, até certo ponto, comum no cinema. Um sem-número de coadjuvantes tiveram desempenhos memoráveis a ponto de não merecerem tal classificação e este poderia ser mais um caso, não fosse sua importância como engrenagem no enredo. Embora o Delegado da cidade de Ebbing, Missouri, desempenhe uma função importante para o desenrolar da história, ele é necessariamente dispensável. Não, não digo que o filme poderia prescindir dele, mas sua morte é fundamental para a narrativa atingir as etapas seguintes. Em tese, bastariam quinze minutos para a morte de Willoughby, mas o trabalho de Harrelson lhe dá sobrevida. Até quase a metade da trama, para ser mais exato.

Este fato ajuda a tirar o foco do que é contado pelo roteirista/diretor McDonagh. Afinal, o que temos diante de nós? Uma história da protagonista (Frances McDormand como Mildred Hayes) em busca de reparação pelo assassinato da filha? Uma peça pregada pelo xerife e suas consequências desastrosas para Mildred? A redenção de um policial pouco brilhante após o abandono de seu protetor? A resposta a qualquer uma destas questões deixa material de sobra para o desenvolvimento da obra. Entretanto, a teimosia em procrastinar a morte de Billy Willoughby deixa pouco tempo para que qualquer uma delas seja satisfatoriamente respondida. Uma série de fatos relevantes se sucedem em pouco mais de uma hora e deixam a quem assiste pouco tempo para digeri-los.

Resta a pergunta: o que pretendia Martin McDonagh ao filmar Três Anúncios para um Crime? A resposta, como se vê no diálogo final entre os personagens de McDormand e Sam Rockwell, é desconhecida.

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