A Vida Extra-ordinária de Tarso de Castro

Direção: Leo Garcia e Zeca Brito
Elenco: João Vicente de Castro, Paulo Cesar Pereio, Caetano Veloso
Distribuidora: Boulevard Filmes
Gênero: Documentário
Estreou: 24/05/2018
Uma vez Teixeirinha cantou: “Sou gaúcho lá de Passo Fundo…”, e virou referência da música gaúcha e conhecido nacionalmente. Um certo dia, um jornalista que se criou dentro da redação de O Nacional da cidade gaúcha arrumou as malas e foi para o Rio de Janeiro fundar simplesmente o jornal mais icônico de sua época: O Pasquim. Tarso de Castro tornou-se assim o jornalista mais influente e rebelde que o país já viu.

Os diretores Leo Garcia e Zeca Brito percorrem a trajetória do personagem do filme de forma criativa e natural. Invés de uma câmera mirando o entrevistado, optou-se por reunir em grupos essas pessoas que, em meio a drinques e comidas, comentam e contam histórias e lendas de Castro. Essa não é a única forma. Simbolizando o aparelho que tanto o jornalista usou, o telefone também é usado como forma de tornar a narrativa mais fluida. No espectador causa estranheza uma vez que há uma câmera presente e as conversas parecem direcionadas.

O documentário datado. Os Diretores resolveram usar passagens de filmes da época para contextualizar isso e dar ênfase à personalidade de Castro a partir dos diálogos em sua maioria de  Paulo José. Para a geração mais jovem pode haver dificuldade de compreensão. Isso também ocorre na identificação dos entrevistados, já que optou-se por não informar a profissão ou o local em que trabalharam juntos. Interessante para os saudosistas, mas um ponto negativo.

Mesmo assim é fácil imergir por completo no documentário. Tarso de Castro é um personagem complexo e rico em histórias. Problemas com bebidas, pendurar contas em bares, ser uma pessoa amável e grande empreendedor. Crítico voraz da política brasileira, soube bater de frente na ditadura, nos concorrentes como Roberto Marinho e viu na democracia o crescimento desgostoso da uma imprensa padronizada e chapa-branca.

Por si só, isso já seria conteúdo suficiente para um filme. Mas sua vida pessoal e amorosa também eram uma montanha-russa. Lembrado e enaltecido pela grande maioria dos colegas, Tarso de Castro foi um visionário. Em plena Ditadura reuniu os grandes jornalistas da década de 60 e 70 e deu voz criativa a todos em O Pasquim. A liberdade era tamanha que nem reunião de pauta havia.

Sem qualquer tipo de direcionamentos, o livre-arbítrio defendido e prezado no jornal teve um custo. Brigas internas ocorriam com frequência. Parte do grupo desejava um jornal mais intelectual; outros defendiam a continuidade da rebeldia por meio de paródias e crítica ácidas. Isso fugiu tanto de controle, que Castro acabou demitido do próprio jornal que tanto amava.

Sem adentrar em polêmicas e levantando mais o folclore do personagem, o documentário confunde-se com uma homenagem. Tanto é que a presença do seu filho João Vicente de Castro, que pouco conheceu o pai, trata dele perguntando a Roberto D'Avila as motivações que ele teve como jornalista. E que tipo de causas ele defendia. Aí o Roberto diz: “Ele queria um mundo melhor”. Pode (e até deve ser) verdade, mas foge por completo do tom e caráter definido durante todo o filme.

Ao Documentário talvez falte isso. Um pouco de quebra de padrões, que retratava tanto Castro com suas ironias e críticas. É uma justa homenagem a um dos maiores nomes da imprensa nacional que tão pouco reconhecimento teve e, inclusive, pouco lembrado é por seus pares e em faculdades de jornalismo. Castro representou e foi tudo o que um verdadeiro jornalista deseja: livre.



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