Ferrugem

Direção: Aly Muritiba
Roteiro: Aly Muritiba, Jessica Candal
Elenco: Tiffanny Dopke, Giovanni de Lorenzi, Enrique Díaz
Distribuidora: Olhar Distribuição
Gênero: Drama
Orçamento: ---
Estreou: 30/08


Com muita sensibilidade, coragem e perspicácia para tocar no assunto, o Diretor Aly Muritiba não dá voltas para jogar na cara do espectador o problema tratado em Ferrugem: o bullying sofrido pela jovem Tati (Tiffanny Dopke). Após perder o celular em um encontro entre colegas, um vídeo com conteúdos íntimos da jovem é viralizado nos grupos de Whatsapp do Colégio. A partir de então, Tati sofrerá todas as terríveis consequências desta situação.




O diferencial deste trabalho é evidente já no primeiro ato. Centralizar a questão na jovem com seus anseios, angústias e, cada vez maior, isolamento. O adulto na forma de personagem ou diálogo, não faz parte do universo que Muritiba quer mostrar. Afinal, ninguém sofre as maiores violências psicológicas que Tati. Ela sente na pele os preconceitos dos colegas e todos os olhares de reprovação. Constrangida,.um sentimento devastador toma conta dela. Outro aspecto retratado com sutileza mas simbólico, é a visão machista. A vergonha que só ela, como mulher, pode sentir. Seu ex-namorado, que aparece no vídeo, sequer tem preocupação com o fato. Visto que a forma machista de se brincar com isso é muito diferente da exclusão sofrida por Tati. Vendo-se sozinha, ela precisa reagir.


Na segunda parte do filme, o Diretor apresenta, de modo mais formal, Renet (Giovanni de Lorenzi), o último menino com quem Tati ficou e que estava com ela quando o celular sumiu. Renet desde o início do longa mostra aversão à mãe, é introspectivo e, mesmo.interessado na garota, não é pró-ativo, em uma demonstração mista de respeito com timidez. Contudo, ao saber do vazamento do vídeo e ser acusado por Tati, ele a ignora.



Tati e Renet em meio ao barulho do Colégio


Quando a grande virada do filme ocorre, o espectador passa a acompanhar Renet em uma casa na praia junto com seu pai Davi (Enrique Diaz), seu primo Eduardo (Pedro Inoue) e com sua irmã. A chegada inesperada da mãe Raquel (Clarissa Kiste) é o prenúncio de que fortes mudanças acontecerão e algumas explicações do comportamento retraído do jovem virão à tona.


Se Davi tenta proteger o filho, usando sempre uma palavra de conforto para tranquilizá-lo, a falta de um diálogo efetivo os deixa em lados opostos. Com Eduardo, as verdades afloram e momentos de atrito ocorrem. Raquel é uma pessoa objetiva e, apesar da falta de demonstração de afeto do filho, ela se mantém presente e persistente. Ao saber que a polícia intimou seu filho a prestar um depoimento, ela, do seu jeito, tentará convencê-lo a fazê-lo.


É com esse drama angustiante centrado no isolamento de dois jovens, dividindo o filme em duas partes bem definidas (apesar do desequilíbrio de ritmo da primeira para a segunda)  que Aly Muritiba dá corpo ao seu trabalho. Há muitos assuntos sob a cortina como o vício no celular, a relação superficial entre jovens e a desconexão de pais e filhos. Mas o bullying faz parte da narrativa central. É um tema delicado, conflitante e na verdade de difícil solução como quando apresentado na realidade do longa.


* Ferrugem foi contemplado no Festival de Gramado deste ano com os Prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Filme.



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